KAFKA E  A METAMORFOSE

                                                                                               

(*) Lourival  Serejo

 

 

A  primeira vez que fui apresentado a Franz Kafka, ainda quando era aluno do colegial, foi na antiga Galeria dos Livros, que ficava na Rua Osvaldo Cruz. Meu cunhado, que era promotor de justiça, apontou-me para a série de livros de Kafka, enfileirados na estante, e disse-me que era um autor muito difícil de ler.

Instigado por aquele desafio, resolvi atirar-me à leitura de alguns estudos biográficos sobre aquele intrincado autor tcheco. Surpreendeu-me descobrir as marcas da sua individualidade, delineadas pelo seu retraimento, pela obstinação e pelas inquietações existenciais. Em Carta ao pai ele deixa muito de si e de suas circunstâncias. Mais surpreso fiquei à proporção que lia Cartas a Milena, O processo, A metamorfose, Na colônia penal,  O castelo,  Um artista da fome e muitos outros contos.  

Kafka é um mundo de enigmas e metáforas que se expressam com perfeição. Até hoje, seus escritos desafiam os intérpretes e deleitam seus leitores, deixando alguns frustrados por não conseguirem captar o valor da sua arte.

Pietro Citati inicia sua biografia desse gênio da literatura universal, afirmando que todas as pessoas que encontraram Franz Kafka, na juventude ou na maturidade, tiveram a impressão que o circundava uma parede de vidro (Milano: Rizzoli Libri, 1987).

Dentre suas obras, destaco  A metamorfose   para comemorar, neste 2015 que se finda, os cem anos de seu lançamento.  Nesse livro, escrito em três semanas, Kafka relata, com seu engenho peculiar, o drama de Gregor Samsa que, ao acordar, estava transformado em um inseto (um besouro? uma barata? Para Modesto Carone, Kafka nunca quis que isso ficasse claro. Bastava que entendêssemos como uma inseto repugnante). É logo no início, que o leitor fica surpreendido com a notícia da transformação: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso".

A perplexidade inicial da família foi transmudada em repúdio, diante daquele inseto abjeto que nada lembrava o filho e irmão querido, o qual, como caixeiro-viajante, era o responsável pelo sustento da casa.

Depois de ser desprezado por todos, em estado de inanição, Gregor Samsa morreu, para satisfação da família, que passou a ter uma vida nova. Vladimir Nabokov, em suas Lições de literatura, recentemente lançadas no Brasil, fez um estudo pormenorizado da obra centenária de Kafka, dividindo o conto em três partes, e estas  em cenas. Trata-se de uma análise crítica exaustiva que busca elucidar a grandeza da obra, apontando  sua inclinação para o simbolismo e o absurdo.

Numa família organizada dentro dos padrões da normalidade – a família Samsa – a transformação de Gregor num inseto repugnante a desintegrou, fazendo perecer até o sentimento de fraternidade. A maçã encravada nas costas do besouro Samsa, atirada pelo pai, em momento de revolta, fica ali até apodrecer.Talvez a maior decepção de Gregor Samsa tenha sido o desprezo que a irmã, Grete, passou a lhe dedicar.

Dizem que Garcia Márquez, ao terminar a leitura de A metamorfose, exclamou: "Ah, isso é possível? Então...."  E soltou sua genialidade para as alturas do fantástico.

Após a tradução feita por Modesto Carone  (Cia. das Letras), passamos a ter a certeza de fazer uma leitura de A metamorfose capaz de apreender seu verdadeiro valor literário.

Toda a obra de Kafka é um desafio hermenêutico que remete o leitor a um mundo abissal de símbolos e divagações em que a própria existência humana é questionada em seu absurdo.

 

(*) Lourival Serejo é Desembargador do TJ-Maranhão.

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